Peixe na brasa e cerveja gelada. O banquete é servido em qualquer praia brasileira nos meses de verão. O costume de se unir para comer peixe e beber álcool existe existe mais tempo do que você imagina: desde o momento pré-colonial. Um novo estudo sugere que as pessoas tinham o hábito de festejar dessa maneira nos meses de verão existe mais de dois mil anos.
O costume não surpreende. Milhares de anos atrás, festas em momentos de calor já estavam enraizadas na sociedade – e o álcool já fazia parte da programação. Na Roma antiga, festivais como a Saturnália e a Lupercália já reuniam o povo para festejar os solstícios. Os gregos e egípcios velhos também celebravam seus deuses nesses momentos.
Analisando fragmentos de cerâmica de 2300 a 1200 anos atrás, um time internacional de pesquisadores, que conta com cientistas da Universidade Federal de Pelotas, descobriu que esse tipo de celebração também eram comuns no Brasil pré-colonial.
As cerâmicas foram achadas na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. As margens da Lagoa são caracterizadas por montes de terra firme, conhecidos como “Cerritos”, construídos por ancestrais pré-coloniais dos grupos indígenas Charrua e Minuano.
Conforme a pesquisa publicada no jornal científico Plos One, nesta época as bebidas fermentadas já eram produzidas na área. Elas eram feitas com algum tipo de vegetal, como palma, milho doce e tubérculos. Os vestígios etílicos foram vistos nas cerâmicas, evidenciando uma das primeiras evidências do álcool no local. Os fragmentos também indicavam o consumo de peixes.
Oliver Craig da BioArCh na Universidade de York explica em comunicado que, por intermédio de análise química, o time de cientistas determinou quais produtos estavam presentes nos vasos de cerâmica dos Cerritos, e também como as pessoas preparavam esses produtos. Desse jeito, descobriram a possibilidade da fermentação de bebidas.
Para os autores do estudo, a descoberta prova que os Cerritos tinham um papel social de união de um povo. Marjolein Admiraal, que realizou a pesquisa na Universidade de York, sugeriu que as reuniões sazonais nos montes eram eventos culturais importantes e que marcavam a reunião de comunidades dispersas que se uniam para celebrar a volta de peixes migratórios.
“Esses eventos oferecem uma excelente oportunidade para atividades sociais, como funerais e casamentos, e têm grande significado cultural”, falou ela em comunicado.
O brasileiro Rafael Milheira, da Universidade de Pelotas, entende os Cerritos como uma combinação ritualística e doméstica.
“Sabemos que grandes reuniões e festas eram eventos culturais importantes no passado (e hoje), em todo o mundo. E sugerimos que os povos pré-históricos da área teriam investido na produção de cerâmica em antecipação a essas reuniões que atraíam as pessoas para a Lagoa dos Patos para se alimentarem de recursos aquáticos sazonais.”
Os autores ainda reforçam que a preservação dos Cerritos como patrimônio cultural pampeano único é essencial para o entendimento de sociedades do passado.


