A Amazônia talvez não esteja prestes a virar savana. Mas ela também não fica saindo ilesa das queimadas. Essa é a principal conclusão de um estudo brasileiro que acompanhou, por mais de 20 anos, regiões de floresta afetadas por incêndios no Mato Grosso.
A pesquisa, publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), foi conduzida por cientistas ligados à Universidade de Yale e ao Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), com apoio do Instituto Serrapilheira.
O artigo analisa a resiliência e a capacidade de regeneração da Amazônia depois de os incêndios. A conclusão é que o bioma consegue se recuperar parcialmente dos danos, mas com muitas sequelas negativas.
A ideia de “savanização” parte da hipótese de que, sob pressão de desmatamento, fogo e mudanças climáticas, a floresta poderia perder sua estrutura original e ser parcialmente ou completamente substituída por vegetação aberta, dominada por gramíneas, típicas de biomas secos como as savanas. Isso implicaria uma mudança profunda e difícil de reverter.
Essa possibilidade existe existe décadas na comunidade científica e é sustentada principalmente por modelos climáticos, que projetam um aumento de secas, calor e incêndios na área, produzindo condições para esse tipo de transição.
Mas não existe unanimidade sobre os detalhes desse processo. Alguns cientistas defendem que existe um “ponto de não retorno”, um limite de desmatamento que, se ultrapassado, levaria a uma savanização total da Amazônia. Outros estudos, como este novo, indicam que a resposta da floresta pode ser mais complicada.
Mais de 20 anos de testes
O experimento iniciou em 2004, na Estação de Pesquisa Tanguro, uma área de transição entre a Amazônia e o Cerrado. Três regiões de 50 hectares foram seguidas pelos pesquisadores.
Uma permaneceu intacta durante todo o momento. Outra foi queimada todos os anos entre 2004 e 2010. A terceira queimou a cada 3 anos, no mesmo momento. Isso permitiu comparar não só o impacto do fogo, mas também o efeito da frequência das queimadas.
Nos primeiros anos, os resultados pareciam confirmar o pior cenário. Muitas árvores morreram, abrindo clareiras no dossel (a camada composta pelas copas, que funciona como um “teto” da floresta). Com mais luz chegando ao solo, gramíneas invadiram o ambiente. Em alguns trechos, a floresta perdeu quase todas as árvores.
Quando os incêndios cessaram, em 2010, as árvores começaram a voltar, seja rebrotando das que sobreviveram, seja a começar de sementes que já estavam no solo ou que foram trazidas por animais.
À medida que cresciam, suas copas voltavam a sombrear o solo, reduzindo a temperatura e a incidência de luz – e impedindo o avanço das gramíneas, que dependem de luz direta.
Em por volta de dez anos, a estrutura da floresta – altura das árvores, cobertura do dossel, densidade de vegetação – se aproximou dos níveis originais. Veja a comparação histórica:
Menos diversidade
O estudo indica que a Amazônia tem uma capacidade de regeneração excelente. Mas nem tudo são flores. A composição da floresta mudou de forma significativa. Espécies típicas – principalmente aquelas de crescimento lento, madeira densa e vida longa – foram as mais afetadas. Muitas têm casca fina e pouca resistência ao fogo, o que explica por que desaparecem primeiro.
No lugar delas, passaram a dominar espécies mais adaptáveis, que crescem rápido e conseguem colonizar ambientes degradados, alterando a lógica de funcionamento da floresta.
Além disto, árvores de crescimento lento acumulam carbono por séculos. Já as espécies que ocupam seu lugar armazenam menos carbono e por menos tempo. A floresta pode até parecer recuperada, mas sua capacidade de regular o clima e sustentar a biodiversidade diminui.
Esse processo é o que os pesquisadores chamam de homogeneização ecológica; a floresta perde diversidade e passa a ser dominada por poucas espécies muito abundantes, apelidadas de “generalistas”.
Isso tem efeitos em cascata. Uma floresta diversa proporciona diferentes tipos de alimento e abrigo para animais. Quando essa variedade diminui, espécies da fauna podem desaparecer localmente.
Animais como antas, macacos e aves, que espalham sementes, deixam de cumprir seu papel – o que, por sua vez, dificulta ainda mais a regeneração da própria floresta.
Os impactos não são uniformes. Nas bordas da floresta, próximas a regiões desmatadas, os efeitos são muito mais intensos. Nessas regiões, o estudo registrou perdas de até 95% dos pessoas arbóreos depois de os incêndios. Parte da vegetação volta, mas a diversidade se mantém muito reduzida mesmo mais de uma década depois.
A explicação fica no microclima. As bordas são mais quentes, mais secas e mais expostas ao vento. Além disto, costumam ser invadidas por capins trazidos de fora, que queimam com facilidade. Isso aumenta a intensidade do fogo e cria um ciclo difícil de interromper: incêndios mais fortes matam mais árvores, abrem mais espaço e favorecem ainda mais o avanço desses capins.
Outro resultado importante envolve a frequência dos incêndios. O estudo exibiu que não existe um padrão simples em que “mais fogo sempre causa mais dano”. Em alguns casos, queimadas menos frequentes foram mais destrutivas. Isso realiza-se porque o intervalo maior permite o acúmulo de material combustível, como galhos e árvores mortas. Quando o fogo ocorre, ele é mais intenso.
Ainda assim, o fator decisivo é a repetição no decorrer do tempo. “É um efeito cumulativo, como marteladas sucessivas, que vai gradualmente erodindo as características fundamentais do ecossistema”, falou Leandro Maracahipes, principal autor do estudo, à Super.
Essa ideia ajuda a compreender o risco de longo período. A floresta pode resistir a um acontecimento separado, mas perde resiliência quando os distúrbios se repetem.
Exatamente por isso, os autores não descartam completamente a possibilidade de “savanização” do bioma. Isso pode ocorrer, aponta o artigo, caso os incêndios sejam frequentes e intensos, sem tempo para a floresta se recuperar. “Incêndios recorrentes ou mudanças climáticas futuras podem causar degradação duradoura ou savanas derivadas da ação humana”, escrevem os cientistas no artigo.
Limites da recuperação
O estudo também exibiu que o fogo não é o único agente de transformação. Mesmo na área que nunca foi queimada, houve mudanças no decorrer das duas décadas.
A explicação mais provável fica em fatores climáticos. Secas mais intensas e tempestades de vento aumentam a mortalidade de árvores, abrindo espaço para novas espécies. Isso indica que a Amazônia já fica respondendo a pressões mais amplas, ligadas ao aquecimento global.
Diante disso, os pesquisadores evitam conclusões simplistas. Segundo eles, o estudo encontra poucas evidências de que a Amazônia vá se transformar em uma savana estável. Mas também mostra que isso pode depender das escolhas feitas agora. “Recuperação e ponto de não retorno não são mutuamente exclusivos”, afirma Maracahipes.
Sem novos incêndios e com regiões de floresta preservadas ao redor, a regeneração é plausível. Em um cenário de desmatamento contínuo, fragmentação e fogo recorrente, essa recuperação pode não ocorrer.
“O lado positivo é que florestas mesmo altamente degradadas são capazes de se recuperar. No entanto, isso não significa que podemos degradar as florestas sob a premissa de que elas se recuperarão rapidamente”, concluiu o pesquisador.
Por final, vale lembrar uma limitação do estudo: ele foi feito em somente uma área da Amazônia, e não se sabe se seus resultados são generalizáveis para toda a extensão da Floresta, que não é homogênea.


