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Por que Jaspion fez mais sucesso no Brasil do que no Japão?

3 de julho de 2026
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Por que Jaspion fez mais sucesso no Brasil do que no Japão?


Nesta quinta (1), o óbito do ator japonês Hikaru Kurosaki, aos 64 anos, fez muitos brasileiros relembrarem um personagem que marcou a infância de toda uma geração. 

Intérprete de Jaspion, Kurosaki deu vida ao herói de armadura metálica que virou um fenômeno na televisão brasileira no final dos anos 1980, embora nunca tenha alcançado o mesmo status em seu país de origem.

O óbito foi divulgada por um amigo do ator, Masaki Sekiguchi, em uma publicação no Facebook. A causa não foi informada. Depois de deixar a carreira artística nos anos 1990, Kurosaki viveu por mais de três décadas em Okinawa, onde trabalhava como instrutor de mergulho.

A diferença entre a recepção da série no Brasil e no Japão chama atenção até hoje. Afinal, como uma produção que fez exclusivamente um sucesso moderado em seu país natal se transformou em um dos maiores ícones da cultura pop brasileira?

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Relembre a série

Lançada no Japão entre 1985 e 1986, O Fantástico Jaspion é uma série do gênero tokusatsu, nome dado às produções japonesas com atores que fazem uso intenso de efeitos especiais, normalmente envolvendo super-heróis, monstros gigantes, robôs e histórias de ficção científica. 

Produzida através da Toei Company, ela teve 46 episódios e faz parte da franquia Metal Hero, composta por heróis que usam armaduras tecnológicas para confrontar seus inimigos.

Na história, Jaspion é um órfão criado através do sábio Edin depois que seus pais são mortos pelas forças do vilão Satan Goss. Anos depois, uma antiga profecia anuncia que o império do mal voltará a espalhar monstros gigantes através do universo. 

Guiado por essa profecia, Jaspion viaja até a Terra para impedir os planos de Satan Goss. Na missão, luta com uma armadura metálica, uma nave espacial e o robô gigante Daileon, sempre auxiliado da androide Anri.

Antes de interpretar o personagem principal, Hikaru Kurosaki trabalhava principalmente como dublê. Participou da versão japonesa de Homem-Aranha (1978) e de outras produções do gênero até ser escolhido para viver aquele que se tornaria seu papel mais conhecido.

Apesar da fama que conquistou no Brasil, Jaspion nunca foi um fenômeno semelhante no Japão. A série registrou média de 11,8% de audiência, um índice considerado bom para a época e superior ao de produções como Jiraiya, Jiban e Kamen Rider Black. Ainda assim, ela não se destacou entre os muitos títulos da época.

Isso realiza-se porque audiência é exclusivamente um dos fatores que medem o sucesso de um programa. Também entram nesta conta a repercussão entre o público, a venda de produtos licenciados, a influência sobre outras produções e a permanência na memória dos espectadores.

Quando Jaspion estreou, os japoneses já acompanhavam havia alguns anos as séries da franquia Metal Hero. O personagem era o quarto herói desse universo e chegou depois de produções como Gavan, Sharivan e Shaider. Assim, não representava uma grande novidade.

Ícone brasileiro

No Brasil, a situação era exatamente o oposto. A série estreou em 22 de fevereiro de 1988 na Rede Manchete, dentro do programa Clube da Criança, apresentado através da Angélica. A emissora buscava atrações capazes de disputar a audiência infantil com a Globo e apostou em uma produção japonesa praticamente desconhecida por aqui.

Em vez dos desenhos e seriados norte-americanos que dominavam a programação infantil (como He-Man e Caverna do Dragão), o público detectou um herói vestido com uma armadura futurista, que enfrentava monstros gigantes em praticamente todos os episódios e encerrava as batalhas pilotando um robô de dezenas de metros de altura.

A produção misturava humor, artes marciais, aventura espacial, criaturas gigantes, tecnologia e uma história contínua sobre a luta contra Satan Goss. Para muitas crianças, era um universo completamente novo.

Outro fator importante foi a forma como a série chegou ao País. Os direitos de exibição foram adquiridos através da Sato Company por um valor relativamente baixo, justamente porque Jaspion não era visto no Japão como uma produção excepcional. A distribuidora enxergava potencial na série, mas o tamanho do sucesso brasileiro surpreendeu até quem havia apostado nela.

Na Manchete, Jaspion de forma rápida se transformou em um dos programas de maior audiência da emissora. Em seu auge, chegou a registrar por volta de 15 pontos e disputou a atenção do público infantil com atrações da Globo, como o Xou da Xuxa.

A própria programação auxiliou a manter o personagem em evidência. Como a emissora possuía exclusivamente os 46 episódios originais, eles eram reprisados com frequência enquanto novas séries japonesas não chegavam ao Brasil. Ao invés de afastar o público, as reprises mantiveram Jaspion presente na rotina de milhares de crianças.

Legado

O sucesso de forma rápida ultrapassou a televisão. O personagem passou a estampar brinquedos, álbuns de figurinhas, discos, revistas e vários produtos licenciados. Também inspirou músicas (como “Jaspion-Changeman”, do Trem da Alegria), espetáculos de circo e ações promocionais, tornando-se uma das principais marcas infantis daquele momento.

Também chegou até os cartórios: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ao menos 53 brasileiros receberam o nome Jaspion. Destes, 47 nasceram entre as décadas de 1980 e 1990.

Mais importante ainda foi o impacto que deixou na programação da TV brasileira. O sucesso de Jaspion abriu espaço para que outras produções japonesas chegassem ao país. Vieram depois séries como Changeman, Jiraiya, Jiban e Black Kamen Rider, consolidando o tokusatsu entre o público brasileiro. 

Nos anos seguintes, a própria Manchete também se tornaria uma das principais portas de entrada para animes como Os Cavaleiros do Zodíaco, reforçando sua associação com a cultura pop japonesa.

Décadas depois, o personagem continua inspirando novos projetos. Em 2020 ganhou o mangá brasileiro O Regresso de Jaspion, postado através da Editora JBC. Já o longa brasileiro Jaspion: o Filme, anunciado através da Sato Company em 2018, passou por sucessivos adiamentos e continua em desenvolvimento, sem data de estreia definida.

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