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Notícias

Orfeu Negro: o filme gravado no Brasil que rendeu um Oscar à França

23 de fevereiro de 2025


Emília Perez é o filme com mais indicações ao Oscar deste ano: são 13 (bem perto do recorde histórico do prêmio, 14). O longa se passa no México e é falado em espanhol, mas foi produzido através da França. O país europeu, além do mais, disputa a categoria de Filme Internacional com o Brasil e outros três concorrentes.

Não é a primeira vez que algo parecido ocorre. Em 2016, a França concorreu ao mesmo prêmio com Mustang, falado em turco. Décadas antes, disputou (e venceu) com Orfeu Negro (1959), um filme em português gravado no Brasil.

Baseado em um musical de Vinicius de Moraes, que por sua vez se inspirou em um clássico mito grego, Orfeu Negro é um dos filmes essenciais para compreender o cinema brasileiro. E talvez um dos mais controversos também, pois ao mesmo tempo em que foi aclamado no exterior, foi rechaçado através da crítica nacional da época. Vamos compreender essa história.

Da Grécia ao Rio

Uma das versões do mito de Orfeu conta que ele era filho do deus Apolo com a musa Calíope. Apolo era a divindade associada ao Sol, às artes, à música e à profecia. O fruto não caiu longe da árvore: Orfeu tornou-se um talentoso músico e encantava a todos ao tocar a lira, instrumento de corda que ganhou de presente do pai.

Orfeu se apaixonou por Eurídice, uma bela jovem que acabou morrendo ao fugir de Aristeu, um homem que se interessou por ela e passou a persegui-la. Desolado, Orfeu decidiu que desceria até o inferno para resgatar a amada.

Com sua lira, Orfeu encantou as criaturas que habitavam o mundo dos mortos e conseguiu chegar até o deus Hades. Sem compreender como um reles mortal havia entrado em seu reino, Hades aceitou devolver Eurídice, mas com uma condição: Orfeu não poderia olhar para ela até que chegassem à Terra.

Orfeu foi na frente e guiou Eurídice durante todo o caminho. Quando estavam prestes a sair do inferno, entretanto, ele se virou para se certificar que Eurídice havia saído de um túnel. Foi um erro fatal: a jovem se transformou em fantasma de novo. Um final trágico para o casal.

–Orfeu Negro/Reprodução

Essa é uma das histórias de amor mais conhecidas da mitologia grega – e serviu como base para um musical do poeta Vinicius de Moraes nos anos 1950. O artista, entretanto, adaptou a trama para as favelas do Rio de Janeiro. Seu Orfeu era um cantor e membro de escola de samba. Ao invés da lira, tocava violão. Já Eurídice era uma moça do sertão nordestino recém-chegada à cidade maravilhosa que fugia de um homem cheio de mistério.

Orfeu da Conceição estreou em 1956 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Era uma equipe de peso: além das letras de Vinicius, a peça contou com a cenografia do arquiteto Oscar Niemeyer e música de Tom Jobim. Foi a primeira colaboração de Tom e Vinicius – os primeiros passos para uma das parcerias mais famosas da cultura brasileira.

–Orfeu Negro/Reprodução

Chegam os franceses

Em 1959, o cineasta francês Marcel Camus adaptou a peça de Vinicius no filme Orfeu Negro, uma coprodução entre França, Itália e Brasil. Os papéis de Orfeu e Eurídice foram interpretados através do jogador de futebol Breno Mello (que na época do filme estava no Fluminense) e através da americana Marpessa Dawn. Os responsáveis através da trilha sonora foram Tom Jobim e Luís Bonfá. O cantor Agostinho dos Santos dublou as cenas musicais de Breno.

O filme foi um sucesso internacional. No Festival de Cannes, levou o prêmio mais importante, a Palma de Ouro. A concorrência era grande: também disputavam naquele ano obras que se tornaram clássicos do cinema francês, como Os Incompreendidos, de François Truffaut, e Hiroshima Meu Amor, de Alan Resnais. Em 1960, Orfeu Negro ainda ganhou Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Internacional.

A obra de Camus foi celebrada por apresentar ao mundo de forma detalhada elementos-chave da cultura carioca (e brasileira como um todo), como o Carnaval, as escolas de samba e a vida nas favelas. Também foi importante através do protagonismo negro. Estamos falando dos anos 1960 – era raríssimo que atores pretos tivessem destaque nas telonas, ainda mais como os heróis da história.

“O impacto mundial foi muito por conta do elemento de valorização da beleza negra”, explicou o cineasta Joel Zito Araújo em uma entrevista sobre Orfeu Negro para o canal Futura. A relevância do filme voltou à tona alguns anos atrás, graças à autobiografia do ex-presidente dos EUA Barack Obama. No livro, ele fala que a obra era uma das favoritas de seus pais (foi o primeiro longa internacional que a mãe de Obama viu na vida).

Orfeu Negro também auxiliou a disseminar um estilo musical que emergiu no Rio na mesma época do filme, a bossa nova – o que consolidou a carreira de Tom Jobim lá fora, inclusive nos EUA. Mas, apesar da repercussão internacional, o filme não foi bem recebido no Brasil.

–Orfeu Negro/Reprodução

Por aqui, as críticas ressaltaram o fato de ser um olhar estrangeiro sobre uma história brasileira, e que isso pode ter contribuído para uma representação simplória da periferia carioca: para além do samba e do Carnaval, existe pouca discussão sobre as dificuldades enfrentadas através da população marginalizada. Por essas, Orfeu Negro foi rechaçado pelos artistas do Cinema Novo – um movimento que ganhou força nos anos 1960 e, na contramão da produção audiovisual da época, quis colocar em evidência as mazelas e desigualdades sociais do Brasil.

(Curiosamente, o francês Emília Perez tem passado por algo parecido no México, onde o público teceu críticas sobre como o filme parece reforçar estereótipos latinos.)

Em 1999, um dos diretores que encabeçaram o Cinema Novo, Cacá Diegues (que morreu no mês de fevereiro de 2025, aos 84 anos), lançou Orfeu, uma nova adaptação da peça de Vinicius de Moraes estrelada por Toni Garrido e com trilha sonora de Caetano Veloso. Tanto essa versão quanto a francesa de 1959 você consegue encontrar no YouTube.

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