Na política, nem sempre quem tenta mudar as regras consegue controlar o resultado. A eleição para a presidência da Câmara Municipal de Itanhaém é um exemplo de como articulações, estratégias e relações de força podem produzir desfechos diferentes daqueles inicialmente planejados.
A eleição de Arlindo dos Santos Martins, o Arlindo Martins (Republicanos), para o comando do Legislativo, com oito votos favoráveis, termina uma disputa através da presidência da Casa, mas abre uma discussão que vai além da composição da Mesa Diretora: o que esse resultado evidencia sobre o atual equilíbrio de forças políticas e quais reflexos conseguirá ter na sucessão municipal de 2028?
O episódio também evidencia uma questão: a disputa eleitoral de 2028, embora distante do calendário oficial, já começa a ocupar espaço nos bastidores da política local.
Quando a estratégia não funciona
No final de 2025, uma modificação no Regimento Interno da Câmara Municipal modificou as condições para a eleição da Mesa Diretora. Entre as mudanças estavam a possibilidade de reeleição para a presidência e a adoção de um novo critério de desempate, baseado na idade dos vereadores, em substituição ao critério de votação.
A iniciativa foi interpretada nos bastidores como uma tentativa de criar condições favoráveis à continuidade do então presidente no comando da Casa.
Entretanto, a estratégia não se converteu no resultado político esperado.
A ausência de antecipação do processo eleitoral e o avanço do calendário encerraram alterando as possibilidades inicialmente desenhadas. O que parecia uma movimentação para assegurar a permanência no poder encerrou com o antigo presidente fora da disputa.
Na política, alterar as regras pode ser parte do jogo. Mas a capacidade de construir maioria continua sendo determinante.
O feitiço, neste caso, virou contra o feiticeiro.
A vitória de Arlindo e o peso da articulação do prefeito
O resultado consagrou Arlindo Martins na presidência da Câmara e evidenciou a articulação política em torno do prefeito Tiago Cervantes (Republicanos).
A participação do chefe do Executivo na construção desse resultado foi destacada como relevante nos bastidores. Mais do que a escolha de um nome para comandar a Câmara, a eleição levou à tona a capacidade do grupo político do prefeito de unir apoio e influenciar a composição da Mesa Diretora.
Esse dado merece atenção.
A vitória eleitoral de um prefeito não se limita ao resultado das urnas. A sustentação política de uma gestão também passa através da relação com o Legislativo, através da negociação com diferentes forças e através da capacidade de construir consensos.
Neste contexto, a eleição de Arlindo representa um indicativo da força política de Tiago Cervantes e da influência que seu grupo preserva na Câmara Municipal.
Arlindo, por sua vez, assume o comando do Legislativo respaldado por oito votos favoráveis, mas terá o desafio de conduzir uma Casa que, por sua própria natureza, reúne interesses e posições distintas.
A nova Mesa Diretora, que terá William Tadeu Ramos de Sousa, o William Thor (União Brasil), como vice-presidente; Leandro Gonçalves Magri, o Leandro Mancha (PSD), como primeiro-secretário; e Edinaldo dos Santos Barros, o Naldo do Bodeguita (Republicanos), como segundo-secretário, inicia o mandato em 2027, com previsão de permanência até o final de 2028.
O próximo capítulo já tem protagonistas?
Se a eleição da Câmara reorganizou as forças políticas do presente, seus reflexos podem alcançar diretamente o futuro.
A sucessão municipal de 2028 começa a aparecer no horizonte, ainda que não existam candidaturas de forma oficial definidas.
Dois nomes despontam neste cenário: José Renato e Marco Aurélio.
Ambos possuem trajetórias relevantes na política municipal. Já exerceram mandatos de vereador, ocuparam secretarias e chegaram à vice-prefeitura. São experiências que lhes conferem conhecimento da gestão pública, relacionamento político e familiaridade com os mecanismos de construção de alianças.
José Renato Costa de Oliva, atual vice-prefeito, aparece associado ao grupo de Tiago Cervantes, cuja capacidade de articulação ganhou evidência na recente eleição da Câmara. Com passagem através do Legislativo, onde presidiu a Casa entre 2009 e 2010, José Renato é destacado como capaz pré-candidato à Prefeitura em 2028.
Marco Aurélio, ex-prefeito, reúne trajetória própria e experiência à frente do Executivo municipal, características que o mantêm entre os nomes a serem observados no debate sucessório.
Uma eventual disputa entre os dois colocaria em evidência não exclusivamente projetos políticos distintos, mas também varias formas de construir alianças e buscar apoio para uma nova gestão.
Ainda é cedo para tratar esse cenário como uma disputa definida. Mas seria ingênuo ignorar que os movimentos atuais podem influenciar diretamente a configuração eleitoral de 2028.
A eleição que começa antes da campanha
A política municipal tem uma dinâmica própria: as eleições iniciam a ser construídas muito antes do momento oficial de campanha.
A composição de uma Mesa Diretora, a formação de maiorias e a aproximação entre chefias podem funcionar como indicadores de alinhamento e de preparação para disputas futuras.
A vitória de Arlindo proporciona uma apresentação concreta dessa dinâmica. O resultado fortalece sua posição no Legislativo, evidencia a capacidade de articulação do grupo do prefeito e coloca em perspectiva os próximos movimentos das chefias políticas locais.
Mas a força demonstrada em uma eleição interna não representa, necessariamente, garantia de sucesso em uma disputa municipal. Entre uma e outra existem variáveis importantes: alianças, capacidade de diálogo, avaliação da gestão e construção de propostas para o município.
É neste terreno que os próximos capítulos serão escritos.
A eleição da Câmara encerrou. A disputa através do futuro político da cidade, ao que tudo indica, fica exclusivamente iniciando.
*Natalie Nanini é jornalista e Diretora de Jornalismo do Sistema Santa Cecília de Comunicação.
Com informações de Santaportal


