Ágeis, flexíveis e com garras afiadas. Fazia mais de 100 anos que a ciência não identificava uma nova espécie de felino vivo (ou seja, desconsiderando fósseis). Isso mudou esta semana, com o anúncio do Leopardus tilcayo, com o apelido de Tilcayo, um felino selvagem que habita os Yungas, área de florestas montanhosas e de alta umidade na Bolívia.
Tilcayo é menor do que um gato doméstico médio. Ele tem por volta de 46 centímetros de comprimento e pesa menos de dois quilos. Sua pele é marrom-clara e coberta de rosetas (manchas) escuras por todo o corpo, de forma irregular.
A descoberta científica envolveu pesquisadores bolivianos, brasileiros e de outras nacionalidades, liderados através do brasileiro Eduardo Eizirik, professor da PUC-RS. O estudo foi postado no dia 17 de setembro no periódico científico Current Biology.
Os pesquisadores desenvolveram uma pesquisa sobre os gatos do gênero Leopardus da América do Sul e verificaram o genoma de 38 sujeitos. Deles, 26 eram da espécie gato-tigre. Alguns também eram exemplares históricos mantidos em museus.
Com as análises, reconstruíram a história desses animais, sua diversidade e evolução, incluindo as populações pouco identificadas na natureza hoje em dia. Eles perceberam, contudo, que os gatos-tigres tinham diversas diferenças genéticas entre si. Provavelmente, não se tratava de uma única espécie, mas de um grupo.
As análises seguintes confirmaram: na verdade, os gatos-tigres correspondem a cinco espécies distintas, sendo que uma é dividida em duas subespécies. Trata-se das chamadas espécies crípticas: animais muito parecidos, que não são distinguidos por características de sua aparência física, mas apresentam diferenças genéticas e evolutivas.
O precursor da descoberta é justamente o Tilcayo. Ele foi reconhecido graças a um filhote macho do animal, detectado nos Yungas em 2016 e levado ao refúgio de animais La Senda Verde. Especialistas acreditavam que o felino era da espécie Leopardus tigrinus.
O novo estudo revelou que, além de pertencer a uma nova espécie, o Tilcayo é de uma linhagem evolutiva distinta, que se separou dos outros gatos-tigres existe por volta de 1,4 milhão de anos.
Agora, os pesquisadores se esforçam para descobrir mais sobre seu estilo de vida e suas características biológicas. Os indícios atuais indicam que, provavelmente, o Tilcayo é mais ativo no momento noturna e se alimenta de pequenos roedores.
Além de tudo, a pesquisa também descreveu uma nova subespécie de felino, o Leopardus tigrinus antisuyo, que também vive nos Yungas, mas na porção peruana do território.
Esses dois novos gatos pertencem ao mesmo grupo e habitam regiões próximas, mas não são parentes evolutivos próximos.
“Nossas análises filogenômicas resolvem as relações evolutivas entre as unidades geográficas do gato-tigre, estabilizando assim sua taxonomia controversa e possibilitando uma avaliação adequada da conservação desses felinos ameaçados”, escrevem os autores em segmento do estudo.
Os gatos-tigres já são classificados como espécies vulneráveis, e novas análises precisam ser feitas agora com as cinco linhagens descobertas. Olhadas individualmente, elas podem se exibir ainda mais ameaçadas, avaliando os desafios ambientais vividos nos Yungas, com desmatamento, incêndios, mineração e outros problemas ambientais.


