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O dia em que brasileiros encontraram o fóssil da maior tartaruga de água doce do mundo

7 de setembro de 2026
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O dia em que brasileiros encontraram o fóssil da maior tartaruga de água doce do mundo


Annie Schmaltz Hsiou é professora associada III e livre-docente do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (USP). O texto a seguir foi originalmente postado no site The Conversation, que reúne artigos escritos por pesquisadores. Vale a visita.

Era junho de 2025 e ainda tenho uma memória vívida daquele dia. Depois de sete horas subindo o rio Acre de barco, finalmente alcançamos a lendária localidade fossilífera conhecida como Patos, localizada próximo da Aldeia dos Patos, no território do povo indígena Manchineri.

A área tem grande importância paleontológica para a Amazônia Ocidental brasileira, em particular para o Estado do Acre. A área localiza-se na Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre, na fronteira entre o Brasil e o Peru, e iniciou a despertar interesse científico ainda no final da década de 1970, quando pesquisadores estadunidenses realizaram os primeiros levantamentos geológicos e paleontológicos. Mais tarde, entre os anos 1990 e 2000, paleontólogos da Universidade Federal do Acre (UFAC) deram continuidade às investigações, consolidando Patos como um dos sítios fossilíferos mais relevantes da área.

É verdade que grilos poderão ser usados para medir a temperatura?

Isolamento que dificulta expedições

Chegar até ali, todavia, exige mais do que curiosidade científica. O isolamento geográfico impõe uma verdadeira prova de resistência. Durante a estação seca amazônica, o nível do rio Acre baixa drasticamente, revelando bancos de areia e “pauzadas” (que são acúmulos de galhos e troncos que ficam enroscados nas margens ou no leito dos rios e dificultam a navegação).

Em momentos de estiagem prolongada, a travessia torna-se ainda mais penosa: muitas vezes é preciso abandonar o barco e empurrá-lo, exigindo atenção (para não pisar nas arraias) e resistência física.

Essa dificuldade explica por que as expedições científicas a Patos são raras. Entre uma expedição e outra, podem transcorrer anos (às vezes décadas), como se a própria dinâmica da Amazônia decidisse, em seu ritmo hidrológico, quando permitir outra vez a entrada daqueles(as) que procuram decifrar os vestígios profundos de seu passado.

Uma descoberta inesperada

Nossa equipe era estabelecida por 16 pessoas, entre pesquisadores(as), estudantes de graduação e pós-graduação, além de barqueiros da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Assis Brasil (AC).

Assim que o barco encostou perto do local onde montaríamos o acampamento, eu e Edson Guilherme Silva – docente, pesquisador da UFAC e meu grande parceiro de mais de 20 anos de pesquisas paleontológicas na Amazônia brasileira – saltamos quase ao mesmo tempo, tomados através da ansiedade de chegar logo ao afloramento fossilífero.

Quando finalmente pisamos nas rochas de Patos, seguimos imediatamente para o ponto que, numa expedição anterior, em 2022, havia rendido alguns dos fósseis mais importantes do sítio — aves, serpentes e pequenos roedores.

Foi então que, de repente, ouvimos os gritos de Negri. O professor Francisco Ricardo Negri, da UFAC de Cruzeiro do Sul, meu grande amigo e um paleontólogo extremamente experiente, vinha logo atrás de nós. Ele estava no começo do afloramento, enquanto já nos encontrávamos em torno de cem metros adiante.

No começo, achei graça da agitação. Comentei que toda aquela gritaria só podia significar que Negri havia avistado algo importante e que talvez devêssemos voltar. Guilherme, entretanto, estava obstinado em encontrar sua primeira ave fóssil daquela expedição — afinal, essa foi sempre sua especialidade.

O tom mudou completamente quando Negri berrou, indignado: “Vocês não viram a tartaruga? Vocês são cegos?” A contar daí, instalou-se uma sequência caótica e eufórica de gritos atravessando o afloramento. Misturavam-se a empolgação de Negri e a nossa incredulidade diante do fato de termos passado exatamente por aquele ponto minutos antes sem notar nada.

A maior tartaruga de água doce que já viveu

E não era qualquer coisa. Tratava-se de um enorme casco de tartaruga fossilizado, parcialmente exposto nas rochas.

Não hesitei. Voltei apressada na direção a ele. Quando finalmente cheguei perto, fiquei paralisada. Lembro da sensação física de perplexidade, como se meu cérebro demorasse a compreender o que meus olhos estavam vendo. Na verdade, levei dias para assimilar a real importância daquele achado para a paleontologia amazônica.

A verdade é que ninguém do grupo estava preparado para encontrar um fóssil daquele porte em Patos. Tivemos até que improvisar uma base de madeira para transportá-lo.

Historicamente, os fósseis mais emblemáticos da área eram de tamanho pequeno ou médio — muitos deles extraordinários justamente por revelarem a diversidade de mamíferos amazônicos extintos, como gambás, roedores, macacos-aranha e muriquis. Frequentemente, esses registros aparecem representados somente por dentes separados, minúsculos fragmentos ósseos ou peças quase microscópicas que exigem atenção extrema durante a coleta.

Por isso, encontrar diante de nós um casco gigantesco, visível a metros de distância, parecia romper completamente com a escala habitual das descobertas feitas naquele sítio fossilífero.

Essa tartaruga tem um nome provável: Stupendemys geographicus. Ainda em fase de preparação e estudo, é considerada a maior espécie de água doce do mundo, que viveu entre 10,8 milhões e 8,5 milhões de anos atrás, durante o momento conhecido como Mioceno. É o fóssil mais completo de uma tartaruga gigante já avistado no Brasil.

Identificamos fragmentos da carapaça, ossos da cintura pélvica, parte de um fêmur e outros elementos ósseos da perna. O casco mede mais de 1,6 metro de diâmetro, e nossos dados preliminares indicam que o animal completo poderia ter em torno de 2 metros de comprimento, perto do descrito na Venezuela em 2020, o maior que se tinha registro até então.

Tivemos que dividir a nossa equipe entre aqueles que iriam trabalhar dia e noite para coletar a tartaruga e outra parte, que ficaria com a prospecção direta nas rochas e peneiramento de sedimentos: afinal, nosso objetivo foi sempre encontrar fósseis pequenos.

Negri e nosso colega Ighor Mendes, pesquisador associado à UFAC, foram os responsáveis através da planejamento da coleta da tartaruga junto com os nossos cinco barqueiros: Abias, Mitieli, Carlos, Josemir e Valter. Eu e os outros membros do grupo ficamos responsáveis através da outra parte do trabalho de campo, agora profundamente reestruturado. Embora estivéssemos fazendo a nossa parte, a tartaruga estava sempre ali, nos chamando para vê-la.

Só tínhamos quatro dias e três noites, e nosso desafio era tão gigantesco quanto o casco da tartaruga. Precisávamos trabalhar sem as ferramentas adequadas — sem gesso pedra, cabos de ferro, estacas de madeira e outros equipamentos e acessórios de coleta que tipicamente nós, paleontólogos, utilizamos para coletar grandes fósseis.

Imagens vazadas para o mundo

Através da primeira vez tínhamos internet em um campo na Amazônia profunda e, na noite do nosso segundo dia de campo, Carlos D’Apolito Júnior, professor e pesquisador da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), coordenador do projeto Amazônia+10 junto comigo, me chamou para, no meio do breu do céu amazônico, exibir uma mensagem que ele havia recebido de alguém em Rio Branco: um link de uma reportagem em um jornal da área de Assis Brasil que dizia “Fóssil gigante de tartaruga encontrada no Rio Acre de 13 milhões de anos”.

Era tanta perplexidade com esse vazamento das imagens que fui diretamente na nossa “cozinha” do acampamento, onde todos os barqueiros estavam. Sabia que tinha sido um deles, mas me mantive calma; afinal, eles que estavam trabalhando diretamente na coleta daquele fóssil e não tinham culpa se, no primeiro dia de campo, nas orientações que eu e Carlos fizemos para a equipe em geral, não foi dito que não poderiam publicar nada de fósseis, absolutamente nada.

Nas semanas seguintes, o impacto midiático daquela foto da tartaruga foi enorme. Nela, os cinco barqueiros apareciam com sorrisos largos na face porque sabiam que estavam fazendo história e que teriam muito o que contar sobre aquela expedição.

Eu estudo fósseis no Acre existe 20 anos em colaboração com a UFAC, e já havia passado por aquela área em outra expedição, em 2022, junto com o Edson Guilherme. Naquele dia de 2025, mesmo depois de tantos anos trabalhando juntos, a expectativa diante de uma nova expedição ainda nos atravessava com a mesma intensidade das primeiras descobertas. E nem tínhamos ideia de que aquela paisagem, já conhecida, iria nos revelar, sem delicadeza alguma, um fragmento monumental do passado amazônico. Eu não estava preparada para localizar um fóssil dessa magnitude: a maior tartaruga de água doce que já existiu no planeta.

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